Por que algumas pessoas se afastam quando começam a gostar?

Será que todo afastamento acontece por falta de sentimento?

Nem sempre. Em alguns casos, ele começa justamente quando sentir deixa de parecer seguro.

No início, tudo acontece com leveza.
A conversa flui.
A presença do outro é agradável.
A relação ainda não exige definições.

Mas então alguma coisa muda.

O vínculo começa a importar.
A ausência passa a ser percebida.
E a possibilidade de perder aquilo que está surgindo se torna real.

Para algumas pessoas, é nesse momento que nasce a vontade de fugir.

Não porque deixaram de gostar.
Mas porque começaram a gostar o suficiente para se sentirem vulneráveis.

A intimidade cria proximidade.

E proximidade significa permitir que alguém atravesse espaços que antes estavam protegidos.

Significa ser visto.
Precisar.
Confiar.
E admitir que o outro passou a ter alguma importância.

Para quem aprendeu a associar vínculos à dor, isso pode parecer perigoso.

O afastamento, então, surge como uma forma de recuperar o controle.

As mensagens ficam mais curtas.
Os encontros começam a ser adiados.
Pequenos defeitos ganham uma importância exagerada.
E aquilo que parecia promissor passa a ser questionado.

De fora, pode parecer desinteresse.

Por dentro, muitas vezes existe conflito.

Uma parte deseja permanecer.
Outra procura uma saída antes que a relação se torne profunda demais.

A lógica silenciosa costuma ser esta:

se eu não me envolver por inteiro, não sofrerei por inteiro.

Esse movimento nem sempre é consciente.

A pessoa pode realmente acreditar que perdeu o interesse, que o momento não é adequado ou que alguma coisa simplesmente deixou de fazer sentido.

Mas, quando o mesmo roteiro se repete em relações diferentes, talvez o problema não esteja apenas nas pessoas escolhidas.

Talvez esteja no que acontece quando alguém se aproxima.

Gostar envolve uma perda inevitável de controle.

Não podemos garantir que o outro permanecerá.
Não podemos prever todos os seus sentimentos.
Não podemos construir uma relação sem aceitar algum nível de incerteza.

E, para quem passou muito tempo se protegendo, essa incerteza pode ser confundida com perigo.

Por isso, afastar-se traz um alívio imediato.

A distância reduz a ansiedade.
O silêncio devolve a sensação de autonomia.
E estar sozinho parece novamente previsível.

Mas o alívio tem um preço.

Com o tempo, as possibilidades interrompidas se acumulam.

As relações terminam antes de encontrarem uma forma.
Os sentimentos permanecem sem nome.
E a proteção começa a produzir exatamente aquilo que tentava evitar: a ausência.

Permanecer não significa ignorar os próprios limites.

Também não significa aceitar relações que machucam ou abandonar a própria autonomia.

Permanecer, às vezes, significa apenas não fugir no primeiro momento em que gostar começa a assustar.

Significa suportar a dúvida por tempo suficiente para descobrir o que poderia existir depois dela.

Nem toda distância é falta de amor.

Às vezes, é apenas o lugar onde alguém se esconde quando ainda não aprendeu que pode gostar sem desaparecer.

Em Corredor 7 — Antes Que Você Vá, Maya conhece bem esse impulso. Ela construiu a própria vida para não depender de ninguém — até perceber que partir nem sempre é o mesmo que estar livre.

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